As obras do Edifício Martinelli iniciaram-se em 1924. No local onde foi
construído havia um sobrado colonial de 1814, que abrigara a Pensão
Ítalo-Brasileira (ou Hotel Itália e Brasil) e o Hotel Paulistano, entre
outros. O mais importante estabelecimento daquele ponto era o famoso
Café Brandão, em cujas mesas se reuniam os estudantes da Academia e
outras figuras da intelectualidade paulistana da época.
O Café Brandão abriu as portas em 1909, mas já em 1915, o imóvel teve de ser demolido para dar lugar ao edifício Martinelli.
O empreendimento do Comendador Giuseppe Martinelli custou-lhe toda a sua fortuna, representada por uma frota de 22 navios.
O
prédio foi idealizado pelo arquiteto húngaro Willian Fillinger, mas o
projeto inicial previa que haveria somente 12 andares. O próprio
comendador acabou posteriormente assumindo o projeto, no intuito de
acrescer mais e mais andares ao edifício. Colocou, literalmente, a mão
na massa, ajudando como pedreiro. O resultado foi que, durante 18 anos,
São Paulo se orgulhou de possuir um edifício de 30 andares, o mais alto
da América do Sul, até o surgimento do Altino Arantes (Banespa).
Para provar a solidez da construção, o comendador foi morar no terraço. Ali ele criava aves, porcos e até mesmo gado leiteiro.
Inaugurado em 1929, o primeiro arranha-céu da
cidade reunia a nata da sociedade paulistana nos
aposentos e bar do hotel São Bento e nas matinês do cine Rosário.
Localizado entre as ruas São Bento, São João e Líbero Badaró, no centro,
era o orgulho da cidade.
Um dos pontos turísticos mais interessantes de São Paulo, o Edifício
Martinelli é também um arquivo de histórias misteriosas envolvendo
personagens de uma metrópole que cresceu aos atropelos. De "point" da
elite a cortiço, o prédio foi palco de prostituição, suicídios, tráfico
de drogas e assassinatos jamais solucionados.
Entre os que encontraram seu fim nos corredores e apartamentos do
edifício está Neide, uma jovem com um passado obscuro encontrada morta
em 30 de junho de 1965 no terreno de um prédio vizinho ao Martinelli.
Sua morte e a investigação policial foram seguidas de perto pelo
"Notícias Populares", que também relembrou outros crimes ocorridos ali.
As mortes que o gigante de concreto testemunhou são hoje histórias de
fantasma, com direito a portas que se fecham sozinhas e vultos sombrios
nos corredores.
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| Manchete do 'Notícias Populares' apresenta outra versão para morte de Neide, que teria caído do edifício Martinelli |
A ousadia da obra do imigrante italiano Giuseppe Martinelli não salvou o
edifício de uma lenta decadência: endividado, o conde precisou vendê-lo
para um instituto italiano, que administrou o gigante até meados da
Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Quando o Brasil declarou guerra ao
Eixo, o governo confiscou os bens de italianos no país e, assim, o
Martinelli passou ao domínio público. Com o fim do conflito, o prédio
foi progressivamente ocupado por moradores menos ilustres, que buscavam
ali uma opção de moradia barata perto do trabalho.
O cinema fechou, o hotel deixou de ser chique e o Martinelli, rebatizado
de edifício América, passou a ser um dos maiores cortiços da cidade já
nos anos 1950. Das colunas sociais migrou para as páginas policiais do
"NP" em reportagens horripilantes. No caso de Neide, a matéria de 1º de
julho ("Mundana jogada do alto do Martinelli") contava que os operários
que trabalhavam na construção do prédio vizinho encontraram o corpo "em
estado deplorável, o rosto deformado, numerosas fraturas expostas e o
antebraço direito desligado do tronco".
A moça parecia ter caído de uma altura considerável. A Delegacia de
Homicídios descartou logo de cara a hipótese de assassinato e ficou com a
de suicídio. Mas análises preliminares do Instituto Médico Legal
constataram que o corpo de Neide apresentava sinais de esganadura e
marcas de choques nas mãos. O caso precisava ser analisado de novo.
As investigações elucidaram aos poucos a vida de Neide: trabalhava na
chapelaria da boate Oasis, tinha 17 passagens pela polícia e era viciada
em jogo. Sua irmã Neuza contou à polícia que a moça, antes de morrer,
andava às voltas com uma dívida de Cr$ 100 mil no carteado. Não morava
no Martinelli, e ninguém sabia dizer o que a levara até lá. Nenhum dos
moradores ou frequentadores a viu entrar, e a polícia penava para
descobrir o andar ou apartamento do qual Neide caiu.
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| Em julho de 1965, agenda de endereços de Neide vira esperança de novas pistas, mas não levou a nada |
Quando morreu, portava apenas um porta-moedas e a chave de seu
apartamento na alameda Barão de Limeira. Em sua casa, a polícia
encontrou um recado para a irmã: "Voltarei logo". Apesar da dívida e da
vida desregrada, a equipe do "NP" não acreditava que Neide cometera
suicídio e apostava na hipótese de tortura (as marcas de choques eram
uma pista) seguida de morte.
Em 13 de julho de 1965, o jornal anunciava: "Neide jogada do prédio
depois de assassinada!". Ela podia ter sido atirada de uma das janelas
depois de morta, de acordo com a opinião de alguns policiais. Mas a
falta de pistas desnorteava as investigações; era mais um mistério que o
Martinelli guardava e que levaria a polícia a arquivar o caso.
Em 1974 o jornalista Ary Morais resgatou algumas dessas histórias
escabrosas na coluna "Grandes crimes no prédio Martinelli". A série foi
publicada no "NP" de 3 a 9 de janeiro e trazia, além do caso de Neide,
os do garoto Davilson e da adolescente Rosa. Sobre Neide, quase dez anos
depois de sua morte o jornal revelava que cálculos da polícia
demonstraram que ela caíra (ou fora jogada) do 17º andar, e que seu
amante, um estelionatário argentino, nunca foi encontrado para ajudar a
esclarecer a morte.
O prédio, pelo visto, já assombrava delegados há muitos anos. Em 9 de
março de 1947, os jornais da época noticiaram discretamente que um
cadáver fora encontrado no Martinelli. O corpo era de um adolescente e,
além de coberto de ferimentos, estava sem paletó e com as calças
descidas até o joelho. Como nos conta Ary Morais, o morto era Davilson
Gelisek, de 14 anos, que morava com a família no centro e trabalhava em
uma alfaiataria na rua Senador Feijó.
Quatro dias antes de ser encontrado naquela situação, o garoto foi
trabalhar normalmente. Saiu para entregar algumas encomendas e não
voltou mais. A autópsia revelou que a causa do óbito foi a queda de
grande altura, mas, mesmo com o registro de várias escoriações no
cadáver, o delegado que cuidava do caso concluiu que fora acidente. Na
boca do povo prevaleceu a tese de que Davilson participava de uma das
orgias que aconteciam nos apartamentos do Martinelli quando foi morto.
Ao que parece, a Justiça sempre deu com a cara nas portas do prédio: na
noite de 9 de agosto de 1972, mais um assassinato ocorria ali e seria
também arquivado por falta de provas. Desta vez era Rosa dos Santos, uma
loirinha de 17 anos que, segundo testemunhas, estivera com um homem no
hotel São Bento. Seu corpo foi encontrado pelo funcionário de um banco
vizinho ao Martinelli que fazia hora extra quando ouviu um grande
barulho: da janela do 2º andar, viu a moça estatelada no térreo do
prédio.
Mistério no Martinelli
Em 5 de julho, reportagem diz que, apesar de marcas de tortura, tudo indicava que Neide se matara
Um sapato de Rosa foi encontrado no 17º andar e sabe-se que ela passou
por um baile antes de encerrar o dia no Martinelli. O tal senhor que a
acompanhava naquela noite não foi reconhecido por ninguém e nunca foi
encontrado. Sem mais evidências, a polícia seguiu o padrão e arquivou o
caso.
Poucos anos depois da morte de Rosa, em 1975, assumiu a Prefeitura de
São Paulo o engenheiro e banqueiro Olavo Setúbal, que decidiu
ressuscitar o edifício América. Os apartamentos de propriedade privada
foram comprados e todos os moradores foram desalojados. A restauração
preservou alguns traços originais do edifício e passou por cima de
outros, tudo com financiamento da própria prefeitura e de alguns bancos.
O edifício Martinelli recuperou seu nome e foi reinaugurado por Setúbal
em 1979. Desde então, abriga algumas secretarias municipais, lojas,
cafés e escritórios, e recebe centenas de visitantes diariamente. Embora
pareça baixinho perto de outros prédios mais modernos, sua arquitetura e
o terraço restaurado mantêm o local como um dos preferidos dos
paulistanos. Quanto aos assassinatos, são agora apenas uma boa história
para turistas.
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| Vista aérea do então recém-inaugurado Edifício Martinelli, c. 1929. |
Fonte:
http://f5.folha.uol.com.br/saiunonp/2014/02/1417017-edificio-martinelli-guarda-misterios-e-assombracoes.shtml
http://saudadesampa.nafoto.net/photo20111002124555.html
http://www.aprenda450anos.com.br/450anos/vila_metropole/2-3_edificio_martinelli.asp