Murilo Bomfim e Taís Toti - O Estado de S. Paulo
Assim como o rock’n’roll, algumas coisas não envelhecem
nunca. É o caso da Galeria do Rock, cuja história se confunde com a da
cidade - pelo menos nas últimas cinco décadas.
Projetado na década de 50 pelo arquiteto Alfredo Mathias, o prédio
que abriga o ‘Shopping Center Grandes Galerias’ só foi inaugurado em
1963. "Havia uma necessidade de ocupação da área central", diz o atual
responsável pelo local, Antonio Souza Neto, mais conhecido como ‘Toninho
da Galeria’. O conceito de rock ainda não havia contaminado as lojas,
que concentravam mais de cem alfaiates.
Em 1976, depois de perder lojas para as regiões sul e oeste da cidade
e passar quase meia década vazia, a galeria ganhou sua primeira loja
punk, a Wop Bop, do vocalista da banda Olho Seco, Fábio. A administração
da época via problemas nas tribos que ouviam sons mais pesados e
proibiu a abertura de novas lojas com o tema. Foi só em 93, com a
chegada de Toninho, que o rock se tornou soberano na galeria. Enquanto
outubro - e a grande comemoração que ele prepara - não vem, celebre os
50 anos em um rolê de compras à moda antiga - ali e nas galerias
vizinhas.
Para comandar as pistas
Além de roupas, acessórios e discos para os
amantes da música, a Galeria do Rock tem um espaço para quem quer
colocar a mão na massa. A Discool’ Box DJ tem um curso que, em 20 horas,
ensina qualquer um a dominar as pick ups. O tempo de aula pode ser
dividido da maneira que for mais conveniente para o aluno, mas é
recomendável fazer aulas de, no máximo, duas horas por dia, duas vezes
por semana. O preço do sucesso é R$ 800, que podem ser divididos em duas
parcelas. Sobre a música: não precisa ser rock não, vale qualquer
estilo. Subsolo, loja 23, 3337-5507.
Cabelo, cabeleira, cabeluda...
Ao andar pela Galeria é comum encontrar
pessoas de diversas tribos. E incomuns são, às vezes, os cabelos de quem
passa por lá. Se, durante o passeio, der vontade de dar um trato no
visual, o Zulu pode se encarregar da tarefa. Sob o slogan ‘A arte em
cabelos exóticos’, o pequeno salão faz cortes e penteados que vão desde
os tímidos até os mais ousados. Há dois cortes bem populares no local.
Um deles se chama ‘From UK’, que deixa as madeixas desfiadas e
irregulares, às vezes com uma franja grande recobrindo o olho. O outro é
o ‘Rockabilly’, que imita a cabeleira de Elvis Presley: batidinho dos
lados e com várias possibilidades no topo. Vale até topete. 1º andar,
loja 211, 3223-8775.
Sem rótulos
No terceiro andar da galeria, uma loja
chama atenção: o pé direito é baixo, o local é escuro e a cor roxa
predomina. A Fake No More vende roupas que vêm de vários lugar do
Brasil, sempre em um estilo... bem, Christian Hosoi (foto), dono da
loja, não gosta de dar nome aos bois: "Há quem diga que é gótico, há
quem diga que é dark, há quem diga que é medieval. Eu não rotulo."
Algumas peças são feitas pelo próprio Hosoi e podem chegar a custar R$
600. Quem gostar do ambiente pode aproveitar a mesa de chás e café,
cortesia do proprietário. 3º andar, loja 474, 997-854-834.
Um canto de paz
Basta ver a placa "sebo mais antigo da
cidade" para querer entrar na Livraria Calil, no 9º andar da Galeria
Itá. Especializada em livros esgotados e raros de temática brasileira, a
loja tem um ambiente agradável, em especial pelo sossego em meio ao
movimentado centro. Maristela Calil deu continuidade aos negócios do
pai, que começou há 68 anos. Para ela, o que faz a livraria ser uma
referência não é só a qualidade do acervo, mas o atendimento pessoal aos
clientes. Mesmo com as prateleiras recheadas de obras raras, Maristela
ainda está em busca de um livro: ‘Há Uma Gota de Sangue em Cada Poema’,
primeiro livro de Mário de Andrade. R. Barão de Itapetininga, 88, metrô
Anhangabaú, 3255-0075.
Em busca de velharia
O pedaço é o melhor amigo dos amantes de
vinil, turma que só aumenta na cidade. Para garantir que a coleção tenha
exemplares essenciais, vale dar uma passada na Galeria Boulevard do
Centro. Passe pelas lanchonetes e pela curiosa e pequena fonte em uma
das paredes do térreo e suba para o primeiro andar, onde há várias lojas
de vinis usados e em bom estado. A maior delas é a Ventania, aberta
desde 1986. Há discos de todos os estilos e épocas, garante o vendedor
Alcides Neto. E a organização ajuda (muito) a encontrar o que procura.
R. 24 de maio, 188, metrô República, 3331-0332.
Preciosidades
O prédio que abriga a Galeria Itapetininga
foi construído em 1945 e, hoje, é o ponto de encontro dos fanáticos por
brinquedos antigos. Os corredores concentram mais de dez vitrines onde
vendedores, como Fábio Assumpção Costa (foto), expõem as antiguidades
que certamente habitaram a sua infância. Entre os mais procurados e
valorizados estão o Forte Apache da Gulliver e os autoramas de marcas
como a Estrela. Brinquedos não são as únicas raridades do centro
comercial, porém. Encontram-se por lá ainda duas lojas de pedras
(preciosas ou não). São vendidas desde as mais comuns, com preço a
partir de R$ 1, até as mais raras, que são bem maiores e podem chegar a
R$ 8 mil. R. Barão de Itapetininga, 267, metrô República, 3259-6515.
Para não perder
A Galeria Nova Barão está se
tornando queridinha dos roqueiros e audiófilos em geral pela variedade
de lojas de vinis (na maioria novos e importados) no primeiro andar. Mas
o térreo também tem coisas interessantes, e não é só a agradável fonte
com banquinhos esperando por um descanso no meio da tarde. Lá tem a
Oliveira, loja com mais de 40 anos de tradição especializada em
guarda-chuvas. Se você pensa que o acessório é item descartável, pode
repensar. Lá os modelos são feitos para serem duráveis (o que justifica o
preço, de R$ 18 a R$ 450), e a loja também oferece serviços de conserto
(entre R$ 8 e R$ 15). Dá para escolher entre sombrinhas de bolso e
guarda-chuvas automáticos, entre outros. R. Nova Barão, 69, metrô
República, 3159-2318.